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Humanizar o planejamento exige da gente coragem

A escola para a criança pequena é o lugar privilegiado em que ela aprende a fazer as coisas por si mesma. Não se trata apenas de ir ao banheiro, comer ou dormir, isso também, mas para além disso está: aprender sobre si, sobre si no coletivo, sobre as suas vontades, os seus limites, os seus desejos e as suas escolhas em relação ao desconhecido.

São os saberes escondidos no cotidiano da escola para as crianças pequenas e que muitas vezes ficam invisíveis, em meio a um planejamento farto de atividades que produzem “produtos finais", que enchem as pastas daquilo que será enviado as famílias para justificar a relação de compra e venda estabelecida. Enquanto não se esgotar um diálogo respeitoso sobre a imagem de infância que tem as pessoas que fazem a escola, que recebem as crianças e as famílias, o risco de um espaço mercantilizado prevalecerá.

Diante disso, ao repensar o planejamento, os espaços, os materiais, os contextos, a organização da rotina, as aprendizagens com sentido e a relação constituída entre os adultos e as crianças, é essencial uma reflexão além da superfície para ter clareza se existe coerência entre o que se diz, o que se pensa, o que se faz e o que se fala. Como escreveu Trueba, p. 19: “Salvar abismos entre o pensamento e ação: entre o fazer, o dizer, o pensar e o sentir.

Planejar a vida cotidiana das crianças na escola, carece de coragem, para subverter a lógica da produção, da reprodução, da cópia e da produtividade, muitas vezes enfeitada de “novidades”, que também foram copiadas, reproduzidas e produzidas sem tempo para reflexão.

Fala-se de tempo, curiosidade, descoberta, investigação, protagonismo, espaço como terceiro educador, embutidos na programação de uma rotina estabelecida das 8h às 8h20, das 8h20 às 8h40, das 8h40 às 9h... Como se fosse possível, nessa fragmentação, a investigação, a descoberta, o protagonismo, as perguntas. De acordo com Hoyuelos, p. 52: “Os programas idealizam atividades simples”, o que contradiz obviamente a complexidade da infância.

A rotina asseguradora, termo usado por Hoyuelos em seu livro: A complexidade e as relações na Educação Infantil, p. 49, desconsidera as aprendizagens escondidas enquanto a criança pequena descobre que consegue fazer coisas por si mesma como: comer sozinha, lavar as mãos, tirar o sapato antes de deitar para descansar, pular de um pé só, recontar a história preferida, perceber que o nome Alice do livro Alice no país das maravilhas, escreve do mesmo jeito que a Alice do grupo dela, fazer a torre mais alta, fazer uma escultura de argila, fazer um desenho para presentear uma amiga, abraçar um amigo que está chorando de saudade da mãe, pertencer a um grupo, além da família. Para isso tudo, as crianças precisam criar estratégias para resolver problemas reais e tais estratégias não cabem no determinismo da rotina previsível. L'Ecuyer, em seu livro Educar na Curiosidade, p. 129, fala em “Humanizar a rotina" e ao meu ver, para humanizar a rotina é necessário humanizar o planejamento, é transver o cotidiano, outorgando a ele, o lugar de motor para o conhecimento.

Diante disso tudo, é legítima a urgência de uma conversAÇÃO sobre planejamento, rotina, cotidiano, mapas mentais, projetos, escuta, registros reflexivos, tempo, infância, documentação pedagógica, diálogo com as famílias, formação dos professores, encantamento, acolhimento e aprendizagens com sentido.


Definitivamente, humanizar o planejamento, exige da gente, complexidade e coragem.


Tais Romero



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